Carta-Convite

Carta-convite: Reverberação da(s) Sexualidade(s)


“No chuchar ou sugar com deleite já podemos observar as três características
essenciais de uma manifestação sexual infantil. Esta nasce apoiando se numa das
funções somáticas vitais, ainda não conhece nenhum objeto sexual,

sendo autoerótica, e seu alvo sexual acha se sob o domínio de uma zona erógena.
Antecipemos que essas características são válidas também para a maioria das outras atividades
das pulsões sexuais infantis. infantis.” (Freud, 1989)

A ideia da sexualidade já se apresentava nas obras de Freud, desde 1890, com a suspeita de que fatores de natureza sexual tinha uma ligação com a remota infância, podendo estar na origem dos sintomas histéricos e na formação do núcleo da neurose.

Nessa época, Freud acreditava que a sedução por um adulto despertava uma forma prematura de sexualidade. Mas em 21 de setembro de 1897, Freud escreve a Fliess, afirmando estar errado sobre a ideia de sedução pelo adulto: “não acredito mais na minha neurótica”, sendo a sedução fruto das fantasias infantis, expressão de desejos incestuosos em relação aos pais.

Mas foi em 1905, com a publicação dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, que Freud introduziu a libido como uma manifestação da pulsão sexual, que não se limitava ao aspecto genético ou somático, mas estava profundamente imersa nas dinâmicas psíquicas do sujeito. Esse movimento foi uma revolução na compreensão da sexualidade, uma vez que Freud desafiou as noções vigentes da época, que viam a sexualidade como uma mera questão biológica ou moral.

A ideia de uma sexualidade infantil que se manifestaria de diferentes formas ao longo da vida (fases do desenvolvimento infantil) foi uma das maiores inovações de Freud, ao  mostrar o caráter multifacetado e polimorfo, uma vez que a libido não se restringe à genitalidade, mas se desloca, ao longo da vida, para diferentes objetos e metas, sendo fator primordial na constituição do psiquismo humano e de suas manifestações psicopatológicas, mas também sendo capaz de se sublimar em atividades não sexuais, como a arte e a intelectualidade.

Desde a fundação da psicanálise com Freud, que concebeu a sexualidade infantil com seu polimorfismo e polissemia, o campo de pesquisas e os esforços de teorização sobre a diversidade sexual têm se desenvolvido rapidamente, na mesma velocidade com que estão se dando as transformações de comportamento nesse campo.

As teorias sobre gênero avançaram muito. Inicialmente foi Stoller quem fez uma distinção radical entre sexo biológico (diferença sexual inscrita no corpo) e identidade de  gênero como o correspondente das significações atribuídas pela sociedade (masculino-feminino). Até as mais recentes concepções de Judith Butler, para quem as identidades de gênero não existem enquanto substâncias ontológicas, nem tampouco existem as categorias binárias de homem-mulher, sendo o gênero uma criação discursiva que depende de enunciação e/ou repetição em um continuum de ações comportamentais públicas, que por sua vez irão, pouco a pouco, materializar e sedimentar determinadas verdades.

Joyce McDougall descreveu as neo-sexualidades como montagens eróticas especificas que tem como finalidade sustentar a identidade subjetiva, que se refere a arranjos libidinais e soluções subjetivas que buscam contornar angústias arcaicas. Diferente da perversão clássica, as neo-sexualidades são defesas e um “acordo” com a cultura e com a própria estrutura psíquica, e não apenas uma patologia. 

Joan Rivière nos apresenta um tipo específico de mulher que possui uma tendência à masculinidade e, tentando ocultá-la, usam a feminilidade como máscara.

Janine Chasseguet-Smirgel aponta para uma feminilidade comum a ambos os sexos, contesta a concepção passiva da vagina e lhe confere um poder de controle e dominação, ligada a analidade.

O próximo número da Revista Mineira de Psicanálise, Reverberação da(s) Sexualidade (s), é um convite a pensarmos, dentro da ética da Psicanálise os modos de subjetivações e seus desdobramento nos sofrimentos psíquicos no que diz respeito as diferentes formas e sentidos da sexualidade, a partir dos conflitos internos do próprio sujeito e dos conflitos advindos de suas singularidades no âmbito social e suas reperfusões na transferência.

O tema suscita as mais variadas reflexões e contribuições, possibilitando uma articulação desde o início das Psicanálise por Freud até os momentos atuais com contribuições de diversos autores e do particular da clínica de cada um.

Assim, a Revista Mineira de Psicanálise tem a hora em convidar psicanalistas, membros em formação, acadêmicos e demais interessados à contribuir com o tema. 

O prazo para envio dos artigos será até o dia 07 de agosto de 2026. As normas de publicação se encontram no site da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais (sbpmg.org.br).

Os artigos  devem ser enviadas para o endereço de e-mail rmp.sbpmg@gmail.com

Maria Goretti Machado
Editora

Conselho Editorial da Revista Mineira de Psicanálise
Cecilia Cruvinel Colmanetti
Daniela Perocco Zanatta
Kátia Maria Amaral dos Santos
Paula Linhares de Andrade

Referências bibliográficas:

▪️Stoller, R.J. Uma introdução à identidade de gênero. In: Stoller, R.J. Masculinidade e Feminilidade: apresentações do gênero. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

▪️Chasseguet-Smirgel, Janine. Sexualidade feminina. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.

▪️Freud, S. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess 1887/1904 (V. Ribeiro, trad.). Rio de Janeiro: Imago,vol.I

▪️Freud, S. Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Imago, vol. VII, 1976:

▪️McDougall, J. Identificações, neo-necessidades e neo-sexualidades. In: McDougall, J. Conferências brasileiras. Rio de Janeiro: Xenon, 1987.

▪️Riviere, Joan. A feminilidade como mascarada (1929), Psyquê, São Paulo: Ano IX, n° 16, jul./dez. 2005.