Agrada-me certa estranheza

um rastro de insuspeita beleza

talvez onde outros só vejam

o supérfluo, o óbvio, o nada além:

o perfil de uma carranca

arquitetura de pau-a-pique

pintura disforme de um desmaiar do entardecer

a elegância de um caminhar isento de desfile

o traço deixado no azul por avião a jato

um sonho tresloucado levado a cabo.

 

E sei que não estou só

outros enxergam o lindo indistinto

onde muitos observam estranhados

o mero objeto, o equívoco, o inútil:

torta árvore do cerrado

pedra esquecida em desvão

um pobre riso de um pobre

o eco distante de um dissonante acorde

de palavras a princípio ásperas ao tímpano.

 

***

 

E eu, propício ao insólito,

inobstante toda indelicadeza do mundo,

jamais descreio de todo:

aqui, além, algures

há de haver certa beleza

nestas minas

nestes brasis

neste planeta: terra

de tanta diversa estranheza.

Silvio Neves

Silvio Neves

Sílvio Neves publicou dois livros de poesia: “Pluriverso” (em coparceria com Ramon Maia) e “Águas”. Participou do “Boletim Poético Sempre-Viva”. Organizou as “Memórias de um Catopê”, do Sr. Ivo Silvério da Rocha. Lançou “Ecos de não lucidez”, contos. Escreveu cerca de três dezenas de letras para canção. No prelo: “Antônio Justino Ribeiro – um incógnito músico são-joanense”. Reside em Milho Verde – Minas Gerais.