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Ambiente e Holding

Winnicott foi o analista que mais revolucionou a psicanálise, pois via o paciente como um semelhante. Ao contrário de outros, também brilhantes, acreditava que cabia ao analista “trabalhar” o ambiente, visto que, no desenvolvimento humano, o ambiente facilitador (mãe ou substituto) é que será determinante para que o indivíduo seja um ser integrado, personalizado e realizado.

Tudo isso permitirá que o bebê entre no espaço da ilusão, no qual, através dos objetos transicionais, ele cria o que já existe, o que levará à criatividade, que é uma capacidade essencial para usufruir a vida. Em continuidade, o bebê perceberá que não precisa abrir mão de si mesmo, pois o ambiente permite e respeita suas demandas originais, de que não precisa fazer grandes esforços para atender a uma mãe instável e que muda a cada minuto. Assim, consegue obter um dos mais importantes aspectos da vida, ou seja, o predomínio do verdadeiro self, que não precisará ser totalmente ocultado.

O ambiente acolhedor faz parte do mundo interno do ser humano, daí ele conseguir ficar só sem a avassaladora solidão “com ruídos”, uma das mais importantes conquistas do psiquismo humano.

Para que tudo isso aconteça, o homem já terá conseguido ver o outro como separado, a vivência de alteridade com respeito e com boa capacidade de adaptação às exigências da realidade. Percebe, naturalmente, que a mesma (realidade) existe e não é função do indivíduo, assim é capaz de lidar com a frustração e não deixar de aproveitar aquilo que os objetos podem oferecer.

Um dos pontos culminantes da obra de Winnicott são os paradoxos. Exemplos: algo existe e ao mesmo tempo é criado pelo bebê e pelo adulto, chegando assim à criatividade; precisa-se do outro para ficar só e inúmeros outros.

Winnicott revolucionou o setting e a técnica psicanalítica, aproximando-se dos pacientes como pessoas e não usa os conhecimentos teóricos para afastá-las e ou distanciá-las. Sua grande virtude, como diz Khan: “sempre deixava que cada um criasse seu próprio Winnicott.”

 

Sérgio Kehdy

Nova Lima, março de 2022.


Constituição do psiquismo, sexualidade e seus desdobramentos

Texto por Marília Botinha.

 

Partindo de Freud, na constituição do psiquismo, temos como vivência fundamental a experiência de satisfação, onde num primeiro momento o bebê mama porque está com fome e, depois de saciado, continua a sugar, porque algo ocorre que traz prazer. Podemos pensar nessa experiência não só como fundante do funcionamento psíquico mas também como  uma  das primeiras estimulações sexuais. Sexual no sentido do corpo reagindo a um prazer que é impulso de vida. O bebê, desde seu nascimento, e, talvez, intrauterinamente, terá em sua superfície corporal um lugar de prazer ao toque, e, ajudado pelos órgãos dos sentidos, poderá experimentar estimulações que farão o psiquismo se desenvolver. Também se desenvolverão as varias áreas erógenas da criança. Levando em conta um dos principais textos de Freud, “Os três ensaios da teoria da sexualidade”, de 1905, podemos perceber ser este um trabalho especial, onde o autor, por mais de 20 anos, escreveu acréscimos, mostrando que esta pedra fundamental pôde ser completada com mais conhecimentos, à medida que a psicanálise também era construída.

A ideia da disposição perversa polimorfa, do autoerotismo, traz uma importante visão com relação ao desenvolvimento sexual e seus caminhos, assim como a descrição de que a pulsão sexual não tem um objeto definido. Tudo isso abre espaço para se entender o desenvolvimento da sexualidade.

Para Freud, a perversão receberia a denominação de patológica somente se esse comportamento fosse exclusivo e fixo. Assim, ele utiliza a ideia de perversão ligada a transgressão de objetivo e objetos relacionada à busca de satisfação da pulsão sexual, retirando, assim, a ideia de patologia, para se inscrever na dinâmica do funcionamento psíquico.

Ainda nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud propõe a noção de bissexualidade, podendo ser esta física e psíquica no ser humano, advindo daí hipóteses sobre a constituição da identidade sexual. A ideia de diferenciação entre masculinidade e feminilidade estará relacionada ao complexo de castração, no caso dos meninos, e à inveja do pênis, com relação às meninas. Essa diferenciação só será evidente na puberdade, quando as zonas erógenas estarão integradas sobre o primado genital, estando essa zona biologicamente desenvolvida. As pulsões, nesse momento, estarão em plena busca de satisfação. Nessa época também ocorrerá uma revivência edípica com a consequente reelaboração do superego, tendo sido erigida a barreira contra o incesto e a escolha de um novo objeto amoroso. As fantasias incestuosas vividas durante a infância, durante as vivências pré-edípicas e edípicas, são superadas e Freud nos diz: “completa-se a mais dolorosa experiência puberal: o desligamento da autoridade dos pais”. Mas não podemos nos esquecer de que este percurso se faz de forma diferente entre meninos e meninas. Não me estenderei aqui em relação à teoria freudiana, mas temos que valorizar que seus postulados, sobretudo a ideia do perverso polimorfo, a bissexualidade e as identificações percebidas durante o processo edípico abrem espaço para pensarmos de forma mais ampla a sexualidade, as identificações e as diversidades. Este é um ponto que abre espaço para muitas reflexões e elaborações.



TRANSGERACIONALIDADE

“Quem somos nós?  Pronomes pessoais.”

  Mário de Andrade, Danças

 

 

 

 

Pedro Nava, escritor brasileiro, em seu clássico livro Baú de Ossos (1972), faz um convite irresistível e, ao mesmo tempo, arriscado, convocando-nos para a imersão no profundo das tramas dos tecidos familiares.

Quem leu o livro jamais se esquecerá das associações vívidas e impactantes por entre os momentos saudosos e outros um tanto quanto aterrorizantes, mescla que domina o convívio familiar.

A palavra família vem do latim “familia”, que, surpreendentemente, significa “o conjunto dos escravos da casa”. Essa alusão nos coloca frente a um significante e à sua semântica peculiar e sugestiva, uma vez que demarcam o aprisionamento frente à trama familiar esses “nós” da Transgeracionalidade, que, seguramente, fazem presença em nosso psiquismo.

E, para melhor entender o caminho trilhado pelas transferências entre sujeitos e grupos familiares, tomemos o conceito de “Transmissão Psíquica”, fenômeno esse de grande importância na gênese do psiquismo humano.

Freud anunciara, contundente, em Totem e Tabu (2013): “Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu”.

Desse modo, a psicanálise, antes mesmo dos estudos atuais, apontava para a importância das transferências geracionais, esses legados de memórias que constituem o psiquismo e que devem ser tomados pelo sujeito com propriedade, tentando entender a natureza desse tecido filogenético e dinâmico.

Citando Freud (1923):

 

Dessa maneira, no ID, que é capaz de ser herdado, acham-se abrigados resíduos das existências de incontáveis egos; e quando o Ego forma o seu superego a partir do ID, pode, talvez, estar apenas revivendo formas de antigos Egos e ressuscitando-as. (pág. 53)

 

A Transmissão se traduz pelo ato de transmitir e transferir, de diversas formas, os conteúdos. Como conteúdos entendemos aquilo que passa a ser de outro sistema, ainda que advindo de outro lugar.

Desse modo, a Transmissão é fundamental na organização da Estruturação Pré-subjetiva e também subjetiva. São vozes e impressões de uns sobre os outros, revelando a dinâmica do funcionamento grupal (família) fora e dentro do psiquismo.

Seria interessante pousar por sobre dois prefixos, trans e intra, uma vez que a diferença entre eles auxilia na compreensão dos conceitos de Transmissão Psíquica.

Trans revela o através, contendo em seu significado a ideia de algo que passa de um para o outro. Já o intra contém em sua significância a palavra entre, sugerindo uma relação entre as partes.

Desse modo, além de constituídos por aquilo que passa de geração para geração – Transgeracionalidade -, ainda temos a nossa constituição psíquica influenciada por algo que ocorre entre sujeitos (intersubjetividade).

Seguindo a linha teórica de Renès Kaëz (1996), existem formas variadas de transmissão psíquica, tanto geracionais como subjetivas.

Na forma de Transmissão geracional, entendemos que os “incontáveis Egos”, ditos por Freud, referem-se às vozes internas das gerações diretas, sejam elas depositários feitos entre as gerações próximas (Transmissão intergeracional) ou mesmo heranças transgeracionais, essas que ocorrem de geração para geração, mas não necessariamente entre famílias que se relacionaram na mesma época. São os antepassados presentificados na atualidade, e, nessa situação, vemos a força da transmissão psíquica na formação do ICS, antes mesmo da constituição subjetiva do Sujeito.

Em destaque à formação do Superego, tomando por base a Transmissão Transgeracional, estamos diante da constituição dessa instância intrapsíquica, não somente pela influência da geração mais próxima, tomando a figura paterna como referência de modelo para a formação do Superego. Por contiguidade, o superego do sujeito também tem a contaminação do modelo parental mais distante, assim como de outros tantos modelos, configurados nas gerações que se antecedem. Sendo assim, os descendentes herdam cargas psíquicas de familiares da primeira geração como de outros de gerações longínquas.

Desse modo, a família tem a configuração representativa de um objeto e precisa ser tratada como tal. É importante que, no processo analítico, a fala que relata os fatos familiares seja subjetivada, podendo o sujeito identificar em si modalidades de funcionamento que repitam os funcionamentos familiares, localizar as defesas utilizadas frente ao medo das invasões transgeracionais e, principalmente, tomar responsabilidade por sobre a ocupação ativa de sua própria mente, não sendo mais o sujeito passivo sobre o qual são postas as impressões de outrem.

Por: Rossana Nicoliello Pinho


Homenagem da Revista Mineira de Psicanálise para o Dia dos Pais.

Não me lembro de nenhuma necessidade da infância tão grande quanto a necessidade da proteção de um pai.”

Sigmund Freud

Nosso afeto aos pais que contribuem para a expansão de um mundo mais humanamente solidário.

Homenagem da Revista Mineira de Psicanálise para o Dia dos Pais.

Sandra Bulhões/Editora da RMP
Cristina Dias
Daniela Landim
Raquel Rios

 


O funcionamento psíquico da neurose obsessiva (NO) – contribuições psicanalíticas

 

Por Maria Cristina Dias 

 

Os Congressos da IPA foram realizados primeiramente em 1908, por Freud e seus colaboradores. Desde então, acontecem regularmente, de dois em dois anos. Em 1965, realizou-se o primeiro congresso temático da IPA, o 24°, cujo tema foi “O tratamento psicanalítico da neurose obsessiva” (NO).

A NO está inserida no quadro das neuroses, sendo a mais regressiva. Na linha divisória do Abraham, ela se encontra entre a fase anal retentiva e a expulsiva. À fase anal retentiva equivale a neurose obsessiva. À fase anal expulsiva corresponde a paranoia. O neurótico obsessivo transita entre questões paranoides e melancólicas. Diz respeito à forma como ele lida com seus objetos; o que faz com o seu ódio e com a sua agressividade na relação consigo mesmo e com o outro.

O obsessivo é o sujeito da dúvida. A ambivalência da melancolia vai desaguar na psicose. O melancólico em crise não tem dúvida; porém, duvidar é importante, pois faz com que o neurótico obsessivo seja neurótico. Se ele fosse um psicótico não teria dúvida.

O cerne da teoria das neuroses é o conflito psíquico, constitutivo do ser humano, sendo o conflito nuclear o complexo de Édipo. O recalque é precário e falha na NO. Na estrutura obsessiva, a ideia incompatível recalcada é substituída por outra ideia através de uma “falsa conexão”. O psiquismo se organiza para lidar com o risco de o recalcado reaparecer. A angústia está sempre presente, o conflito se manifesta no pensamento e, aí, aprisiona o sujeito.

O pensamento obsessivo é calcado no pensamento religioso como pensamento mágico, onipotente, ao qual se atribui mais valor do que ele tem. Medo do desejo. Pensar ou desejar é como acontecer / realizar. O neurótico obsessivo cria rituais que anulam a ação do seu pensamento. Pode-se falar de rituais obsessivos como traços de caráter e rituais obsessivos extremamente limitantes.

O neurótico obsessivo busca tratamento quando o seu modo de lidar com o mundo fica distônico. Enquanto há sintonia, ego sintônico, ele não busca ajuda. Isso ocorre, geralmente, quando o sofrimento ultrapassa sua capacidade de lidar com ele, quando a doença está mais agravada, quando saiu do seu ‘controle’.


Curso de Extensão – 2º semestre 2021

A Clínica Psicanalítica Pós-Freudiana

A SBPMG realizará o Curso de Extensão do segundo semestre de 2021 às quartas-feiras, do dia 4 de agosto ao dia 24 de novembro de 2021.

O tema central do curso será “A Teoria da Técnica Psicanalítica”. Nas aulas serão abordados os principais conceitos e instrumentos para a prática clínica psicanalítica.

Os encontros acontecem online, via plataforma ZOOM, das 19h30 às 21 horas, com docentes experientes em cada assunto, convidados para compartilhar seus conhecimentos conosco.

Você é nosso convidado. Confira a programação abaixo e se inscreva pelo link para participar conosco.

 


O analista e o paciente enlutado: subjetividade e psicodinâmica dos destinos de um luto

 

por Sandra Bulhões Cecilio

 

“Já nem sei há quantos dias eu choro.

 Nunca pensei ter tantas lágrimas para chorar tua partida,

 lágrimas que vêm em ondas devastadoras que arrastam tudo pelo caminho.

Fico nu e náufrago nessa sua agonia.

Você é um pedaço imenso do meu espírito, da minha ética, do meu amor pelos homens….”         LCC

 

 

I – Alguns tópicos

 

  • Tenho descoberto que o trabalho como analista é justamente vivermos a dinâmica dos lutos, realizando a beleza da ressurreição de nosso próprio eu enterrado (mudanças catastróficas).
  •     O paciente enlutado não é apenas aquele que perdeu um amor há pouco tempo. O paciente enlutado é todo paciente que nos procura em busca de ressuscitar seu próprio eu enterrado ou perdido em vários momentos de sua história…
  • Vamos fazendo lutos por tudo que um dia sonhamos, não fomos e nunca seremos e fazendo a ressurreição resplandecente de sonhos interrompidos, sonhos a serem desencapsulados ou sonhos nunca sonhados que podem achar espaços de liberdade para nascerem…
  • Que nossos lutos nos permitam ampliação dos recursos analíticos de cada um de nós e da própria psicanálise…
  • Bion me inspira: Vá sendo você mesma…

 

Vou me tornando viva quando sinto a liberdade de falar do que me toca as entranhas. Aprendi    e sigo com meus pacientes trabalhando as perdas e construindo a subjetividade do ser que posso ser hoje, com a dor do luto de tudo que não sei e não conheço, mas com fé no novo que pode vir a ser através de atos de busca (Atos de fé).

 

II- Trabalho do analista/paciente

 

q Irmos sendo companhias vivas na dor, mostrando (verdadeiramente) ao paciente que ele está sendo visto por alguém, escutado, abraçado psiquicamente.

q  Mostrando que ele não está só, tem companhia no silêncio e no vazio.

q  Irmos aceitando e catando as partes, catando cacos, juntando o pó, fazendo um trabalho de irmos criando voz, cor e poesia na dor. Portanto,   ir “CRIANDO COM”…

q Transformando… Transformando através dos lutos a gente mais próxima da gente mesmo…

q Sendo sempre menos do que desejamos (lutos e perdas…), mas entrando em contado com novas verdades criativas.

q  Lindamente construtores de nossa história única e eternamente sonhante…

 

 

 

Luto  =  Somatório de Experiências emocionais                  Luto   =     F (Perdas) ,

 

 Perdas= (dor+culpa+raiva+depressão)

 

Transformações com a dor:  Desorientação/ Torpor (sofrimento imensurável) / Negação/Isolamento/ Raiva/Barganha/Depressão/Sofrimento/ Culpa/Renascimento

 

 

 

 


Palestra: O futuro sul-americano da psicanálise: paixão clínica, pensamento plural, hibridez cultural

A palestra será ministrada pelo renomado psicanalista argentino Fernando Urribarri.

 

Fernando Urribarri é membro da Associação Psicanalítica Argentina, onde desde o ano 2000 é diretor do grupo de pesquisa Espaço André Green.

 

Ele foi um dos fundadores e ex-diretor da revista Zona Erógena e atualmente é reconhecido por ser o principal interlocutor de André Green, com quem foi co-autor do livro intitulado: “Do pensamento clínico ao paradigma contemporâneo”.

É professor na Universidade de Buenos Aires e como professor convidado na Columbia University em Nova York nos Estados Unidos e Cerisy na França.

 

Você não pode perder a oportunidade de aprender com esse grande profissional, nesse rico intercâmbio latino-americano.

 

A palestra será realizada online, via plataforma ZOOM, no dia 4 de junho de 2021 às 19 horas.

 

Você pode participar de onde tiver, com o investimento de apenas 80 reais.

 

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Não perca essa oportunidade única.

 

Mais informações: 31 9989-5535 (Whatsapp) ou CLIQUE AQUI!


Uma leitura psicanalítica dos estados depressivos

Por Marília Macedo Botinha

No Campo da Psicanálise, podemos dizer que Freud, embora não tenha escrito especificamente sobre depressão, ocupou-se da mesma desde sempre. Seus casos clínicos são permeados por citações e sintomas que falam de depressão. Ele faz, inclusive, uma distinção, pois diz que a “depressão periódica branda” estaria ligada a um trauma psíquico e a melancolia teria origem endógena.

 

Mas é em Luto e melancolia, de 1915, que Freud traz a questão de forma explícita, dizendo que a melancolia é um estado de ânimo doloroso, onde cessa-se o interesse pelo mundo exterior, ocorre a perda da capacidade de amar, inibição de várias funções e, principalmente, diminuição da autoestima. Aparecem autorrecriminações e autoacusações, que podem se intensificar e buscar por retaliações.

 

Freud nos mostra que no luto é a dor pela perda de um objeto amado que precisa ser elaborada. No luto, o exame da realidade leva a libido ao doloroso trabalho de abandono dos ligamentos com o objeto amado perdido, o que ocorre lentamente, finalizando com a liberação da inibição da libido com este trabalhoso processo, mas que dá a possibilidade de se ligar a um novo objeto. Já na melancolia a perda tem características diferentes, pois nem sempre o melancólico sabe o que perdeu ao perder alguém. A conexão fica mais clara quando ocorre a ligação com o narcisismo, em que, através de uma regressão narcísica, se identifica com o objeto perdido. Assim, as acusações, as punições, são realmente acusações ao objeto alojado no indivíduo. Dessa maneira, podemos dizer que a libido antes investida no objeto não se faz liberada para investir em um novo objeto, como no luto, mas se retrai narcisicamente sobre o eu e se identifica com o objeto perdido. Encontramos a emblemática frase freudiana de que a “sombra do objeto recai sobre o eu”, o que impede o trabalho do luto de prosseguir. A ferida narcísica advinda dessa vivência pode se cristalizar e não cicatrizar.

 

Na atualidade, a depressão se tornou um fenômeno significativo dentre as patologias contemporâneas. Encontramos até de forma banal a expressão “estou deprimido”. Essa expressão ficou realmente cotidiana no homem pós-moderno.

 

O paciente chega ao consultório e se diz deprimido. É importante nos perguntarmos: o que é depressão?

O que é tristeza?

 

Muitas vezes me deparei no consultório com pacientes deprimidos ou que se diziam assim, mas é importante termos ouvidos atentos para ouvir e escutar. Ouvir a queixa, ouvir o nome do que o paciente se diz vivendo e escutar sua dor, buscando saber o que de fato ela é. Tentamos buscar no subjetivo da pessoa sua interioridade, sua verdade, sua profunda dor e desamparo.

 

Penso ser necessário fazer uma diferenciação entre o diagnóstico psiquiátrico de depressão e outras manifestações depressivas em psicanálise, como o luto, a melancolia ou a tristeza.

 

Todas essas manifestações estão ligadas a uma dor psíquica relacionada à falta. Vêm à minha mente lembranças de pessoas que atendi e que viviam uma falta por perda, um luto, pessoas que tinham a perda melancolicamente dentro delas, pessoas numa tristeza imensa, advinda muitas vezes de momentos de grande mudança, onde o que é deixado precisa ser elaborado e o que está surgindo traz medo.

 

Outra questão que penso ser importante falar é sobre o envelhecimento. Tenho recebido pessoas de mais de 60, 70 anos, que vivem perdas que o seguir dos anos impõe, perda do vigor. Muitas vezes já escutei: “minha cabeça vai a muitos lugares, tenho vontade de fazer muitas coisas, mas o corpo não acompanha”. Também as perdas por morte se fazem presentes, tem-se muito para elaborar, e se o luto não se apresenta, a melancolia pode ocupar assento e todos os desdobramentos que dela advém.

 

Falando um pouco de teoria psicanalítica, vou citar Winnicott, que propõe a depressão como um movimento do desenvolvimento. Winnicott diz que a capacidade de deprimir-se advém da capacidade do bebê em tomar para si o que há de bom e mau em sua realidade psíquica (pode-se pensar o mesmo na criança e no adulto).

 

Winnicott se utiliza do conceito de concernimento, em que a criança consegue integrar vivências boas e ruins e desenvolve a capacidade de preocupar-se com o objeto e com a sua própria condição de causar danos. Assim, o estágio de concernimento é encontrado tanto nas vivências de luto quanto nas depressões, sejam elas simples ou patológicas. Winnicott destaca a capacidade de deprimir-se como uma conquista do amadurecimento, só naturalmente possível a partir de um certo momento desse desenvolvimento. Caso esta vivência não ocorra de forma satisfatória na vida do indivíduo, a depressão poderá tomar o caráter patológico, passando da ideia de desenvolvimento para a de impotência e de sentimento de não continuidade de ser, o que poderá levar a um quadro depressivo patológico.

 

Levando em conta as proposições de Winnicott, vemos que o trabalho analítico nessas disfunções deve levar em conta as ansiedades advindas do relacionamento dual, e esse será o modelo para a situação analítica. O manejo do tempo e a sobrevivência do analista são as técnicas esperadas. Assim, poderá se constituir a transferência dual, como o que ocorre na relação mãe-bebê ao longo do estágio do concernimento, podendo-se ter que alcançar a análise do primitivo, que evoca o holding na relação analítica. O analista deverá sobreviver à vivência destrutiva do cliente para que este possa desenvolver a capacidade de deprimir-se que levará ao concernimento.

 

Podemos, assim, perceber como a teoria do estágio do concernimento de Winnicott é fundamental para a compreensão dos estados depressivos presentes na clínica psicanalítica.

 

 

Para saber mais sobre o assunto, você está convidado a participar do Curso de Extensão da SBPMG que tem como tema “O analista e seu paciente” que aborda temas complementares a esse texto.

 

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Manifesto SBPMG

Diante do catastrófico cenário em que nos encontramos, onde milhares de vidas se desfazem a cada dia, nós da  Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais – SBPMG nos solidarizamos com as famílias enlutadas e nos manifestamos em defesa dos princípios humanitários, éticos e de respeito à vida.
Providências se fazem necessárias, por parte dos governantes e demais forças políticas e administrativas, no sentido do uso correto dos recursos para que a catástrofe seja minimizada e vidas possam ser preservadas.
A SBPMG faz coro às demais instituições científicas, reconhecidas por sua seriedade e competência, e demanda que o poder público  aja com responsabilidade na busca de soluções plausíveis para a grave crise de saúde, sanitária, social e de saúde mental que se abateu sobre a população brasileira. Faz-se necessário o uso de medidas cientificamente comprovadas para a preservação da vida, como a vacinação,  o uso de mascaras, o afastamento e/ou isolamento social.
Apontamos também a importância da participação da SBPMG no atendimento àqueles que vivem o trauma da tragédia pandêmica.
Estamos cumprindo nosso dever de cuidar do outro e nos sentimos, portanto, habilitados a demandar que as entidades competentes cumpram devidamente suas funções e seus deveres, em todas as esferas necessárias.