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Sarau

A Revista Mineira de Psicanálise promoveu o I Sarau no dia 30/03/2019.

Acompanhem alguns registros desse evento.

 



Pré – Congresso Triângulo Mineiro

O Pre-Congresso do Triângulo Mineiro viveu nos dias 22 e 23 de março, em Uberaba, momentos de inspiração poética da Psicanálise.
Estes momentos terão vibração potencializada no Congresso Brasileiro de Psicanálise em BH de 19 a 22 de junho

 




Cinema e Psicanálise – Março

 

Filme Roma

Palestrantes:
Guigo Pádua – Editor e professor de cinema. Vice-presidente da Associação Curta Minas.
Eliane de Andrade – Psicanalista da SBPMG.

Coordenação:
Raquel Rios – Candidata da SBPMG.

 

 

 

 


Cinema, Psicanálise e o Oscar

Observatório Psicanalítico – 93/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

O CINEMA, A PSICANÁLISE E O OSCAR

Lucas Santos – SBPMG

No dia 24 de fevereiro ocorreu a 91ª edição do Oscar. “Green Book” ganhou o principal prêmio, de melhor filme, além de melhor roteiro original e melhor ator coadjuvante para Mahershala Ali. “Roma” conquistou os prêmios de melhor direção, melhor filme estrangeiro e fotografia. “Bohemian Rhapsody” conquistou quatro prêmios: melhor ator (Rami Malek), edição, edição de som e mixagem de som. Cabe ainda destacar “Pantera Negra” com três estatuetas: melhor trilha sonora original, figurino e direção de arte.

E o que a psicanálise tem a dizer sobre o Oscar? Como é o diálogo entre o cinema e a psicanálise?

É interessante pensarmos um pouco sobre como é a experiência de ver um filme, principalmente, se for no cinema. A escuridão da sala e o seu isolamento do mundo externo favorecem a imersão no novo mundo que é projetado na tela branca e, teoricamente, quanto maior a tela, maior será a experiência de imersão. Com isso, somos tocados pela história que nos é contada. Somos capazes de sentir a alegria, a adrenalina, como se estivéssemos no meio da plateia do show do Queen, vendo o Fred Mercury, em “Bohemian Rhapsody”. Sentimos o medo angustiante no plano-sequência de Alfonso Cuarón em “Roma”, quando Cléo, sem saber nadar, se arrisca no mar para salvar as crianças. Em “Vice”, de Adam McKay, podemos sentir raiva de um político manipulador, inescrupuloso, capaz de realizar cruéis articulações. Ou nos emocionar pelo amor, pela amizade e pela transformação do personagem protagonizado por Viggo Mortensen, em “Green Book”.

E quando um filme acaba somos convidados a olhar para aquilo que está acontecendo dentro de nós, porque essa história nos comoveu? Também lembramos de teorias psicanalíticas que se conectam com aquilo que acabamos de ver.

A primeira análise psicanalítica de um filme foi feita por Otto Rank em 1914, no seu trabalho “O duplo”, sobre o filme “O estudante de praga”, de 1913. Mas vamos voltar para o começo da história do cinema e da psicanálise. Em 1895, Freud e Breuer publicaram “Estudos sobre a histeria”. No mesmo ano Freud escreveu o “Projeto para uma psicologia científica” (publicado apenas em 1950) contendo as sementes para as principais teorias da psicanálise. A coincidência interessante é que em 1895 os irmãos Lumière patentearam o cinematógrafo, um aparelho capaz de capturar e projetar imagens. Também foi o ano da exibição do que é considerado o primeiro filme: “A saída da fábrica Lumière em Lyon”.

Um outro ano marcante para a história do cinema é 1927, o ano da fundação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, na Califórnia. É ela que realiza anualmente o prêmio mais famoso do cinema, o Academy Awards (Prêmio da Academia), popularmente conhecido como Oscar. A primeira edição foi em 1929, ano em que Freud publicou o “Mal-estar na civilização”.

Entretanto, o ano da criação da Academia, 1927 foi quando Freud escreveu “O Futuro de uma ilusão”. O pilar central desse livro é a religião, mas podemos destacar o que Freud nos diz sobre a cultura: “As concepções religiosas originaram-se na mesma necessidade de todas as outras realizações da cultura, a partir da premência de se defender contra a superioridade esmagadora da natureza”.

Ou seja, o desamparo humano frente a impiedosa e mortal natureza levou o homem a criar a arte. É interessante pensarmos como um artista se imortaliza através da sua obra, através do seu filme. Em Crepúsculo dos Deuses, de 1950, Norma Desmond, interpretada por Gloria Swanson, diz: “Eu sou a maior estrela de todas. As estrelas são eternas, não são?”

Talvez, o Oscar tenha essa função mágica, de ser um objeto que amplifica a fantasia da imortalidade, quando o artista entra para o seleto grupo dos ganhadores desse prêmio.

Freud nos diz que a origem da criatividade vem da tentativa de elaborar a perda da onipotência do narcisismo primário, além de ser uma forma de convivermos melhor com a realidade que nos frustra. E por ser frustrante a realidade criamos fantasias a fim de realizarmos nossos desejos insatisfeitos.

Podemos entender melhor a onipotência da seguinte forma: após o nascimento, no narcisismo primário, surge o sentimento de onipotência, quando o bebê está impregnado pela potência real do objeto. Já no narcisismo secundário, o bebê percebe que é o outro o verdadeiro detentor da potência, introjetando o objeto, na tentativa de recuperação da onipotência perdida formando-se o ego ideal. A qualidade dessa internalização do objeto está diretamente ligada a força do ego, que será capaz de estruturar um superego propiciador de uma autoestima realista das suas potencialidades e limitações.

Será que a estatueta do Oscar é um objeto potencializador da onipotência, ligada ao narcisismo primário? Ou será uma experiência do narcisismo secundário, uma realização do ideal do ego, gerando orgulho e satisfação pelo desempenho artístico, aproximando o ego do superego, elevando a autoestima?

( Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).


Tragédia de Brumadinho: da experiência à intervenção

 

Observatório Psicanalítico – 89/2019

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

TRAGÉDIA DA BARRAGEM DE BRUMADINHO: a escuta analítica diante de uma inundação de lama, angústia e desamparo.

Ethyene Andrade Costa – SBPMG

No dia 25/01/2019, o Brasil foi inundado de diversas emoções devido ao que anunciavam os noticiários: a barragem do Córrego do Feijão, na zona rural de Brumadinho, havia se rompido, deixando a unidade da Vale e um povoado sob aproximadamente 15 metros de lama e rejeitos de minério.

No entanto, foi possível perceber no acolhimento dado à população de Brumadinho, que as vítimas não foram apenas aquelas que estavam no local da tragédia. A cidade toda está profundamente imersa em um “inquietante” rio de lama, angustia e desamparo. Diante do estouro da barragem, toda a população se viu inundada pelo Hislflosigkeit, o desamparo, compreendido por Freud não só como a incapacidade de um bebê para sobreviver sem um próximo assegurador, mas de forma mais ampla, como a falta de garantias com a qual o homem se depara diante da queda de ilusões protetoras.

Em sua obra sobre o desamparo, Mário Eduardo Costa Pereira (2008) nos lembra da origem da palavra Hislflosigkeit: Hilfe (ajuda) – Los (falta) – Igkeit, o que parece desenhar a situação dos desabrigados e das famílias das vítimas até então desaparecidas sob a lama.

Essas pessoas sentem-se na ausência de algo que possa ajuda-los a recuperar suas vidas, seus planos, sua esperança e confiança na sensação decontinuidade. A barragem psíquica de cada um deles parece incapaz de conter os rejeitos das tensões geradas pela perda de seus entes queridos.

Aqui convém retomar o conceito freudiano do Unheimlich, representado pelo conteúdo inquietante, nesse caso a condição humana de desamparo, que deveria permanecer oculto no inconsciente, se apresenta como o “que é terrível, ao que desperta angustia e horror” (Freud, 1919). A este cenário, ainda há que se acrescentar um agravante: a falta de notícias sobre os corpos das vítimas devido à extrema dificuldade de resgate apresentada pelo terreno instável de lama.

Diante da impossibilidade de velar seus familiares e assim da dificuldade de ingressar no processo de luto, pais, filhos, maridos, esposas, adultos e crianças ficam, muitas vezes, entregues à negação caracterizada por Freud (1925) como algo que o psiquismo gostaria de reprimir. Após três dias de busca, uma criança aguarda a mãe, dizendo “eu sei que minha mãe tá lá chorando e pedindo socorro”. Após 7 dias do incidente e um dia após enterrar o filho, sem ter tido a oportunidade de velar seu corpo identificado pelos legistas, uma mãe confessa: “hoje já liguei 3 vezes no numero dele. Eu ainda acho que eles podem ter me dado qualquer corpo e meu filho vai chegar aqui qualquer dia desses”.

Nas visitas aos familiares dos desaparecidos em suas casas muitas vezes tão simplórias, encontramos casas cheias, varandas preenchidas de muito carinho e esperança entre os que ficaram. Essas cenas nos ajudam a pensar na importância da escuta analítica em cenários de crise. As palavras do agente de Saúde Mental devem ser simples, o olhar afetuoso e a alma cheia de esperança de que essas pessoas poderão, um dia, reinvestir a libido em novos objetos, reinventando suas vidas. Como dizia anteriormente, diante dos desamparados, “sem ajuda”, em Brumadinho e região, o profissional tem sido aquele que pode amparar, emprestar suas forças e palavras. E por que não dizer que faz lembrar a função no Nebenmensch, alguém que está próximo e pode assegurar a vida do outro à medida que oferece contensão às tensões através de um abraço, da permissão para chorar, extravasar a raiva, ou mesmo para trazer lembranças do ente querido.

O que pode parecer pouco perto de tamanha tragédia, foi representado por um dos acolhidos com um agradecimento, dizendo: “Você tirou 80 quilos das minhas costas”.

Este é um trabalho que exige calma, compreensão e a escuta do que cada choro poderá pedir para nós, em situação de acolhida. Uma atuação que ultrapassa o setting do consultório e as paredes profissionais e existenciais que construímos até então. Há que se escutar, aprender, lutar e se enlutar para reconstruir, junto à essas pessoas ilhadas na intensidade de seus sentimentos, novas barragens.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores)


Nota sobre a tragédia de Brumadinho

Nota da SBPMG sobre a tragédia de Brumadinho

Solidariedade e Responsabilidade

“A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim…”

Quando Quintana nos define a melhor hora da morte, cuidando da leveza do fim, certamente nos alerta para o assombro de outros destinos implacáveis.
Assim estão os nossos irmãos mineiros diante da tragédia anunciada que entristeceu as montanhas das Gerais: impactados pelo inesperado, por uma avalanche de sangue e lama, ainda envoltos no odor da morte e do luto interminável. Não bastasse tal cenário, rondam misteriosas as ameaças de novos rompimentos, destino inevitável de quem caminha nas mãos do imprevisível.
Não há como evitar o sentir profundo quando estamos empáticos aos que sofrem diante de tamanha invasão de dor e sofrimento, tentando encontrar pouso firme em solo que tem no nome a inscrição do desamparo.
Solidária e comovida com a situação atual de Brumadinho, nós, Psicanalistas da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais (SBPMG), trazemos nesse manifesto o reconhecimento da dor legitimada de todos aqueles que perderam familiares e amigos; além disso, a constatação da amplitude do acontecimento por sobre as gerações e a certeza de que as marcas da lama não serão alvejadas pelo tempo, pois não se limpa fácil o impacto da violência e da tragédia.
Junto disso, reafirmamos a nossa indignação, tristeza e o alerta pungente para com a imprescindível e justa apuração dos fatos e envolvidos para com essa tragédia.
E no caminho da solidariedade, segue-se a Responsabilidade, palavra que nos coloca de mãos dadas para com o movimento para o além das teorias, cuidando do acolhimento à elaboração desses registros traumáticos causados por tantos impactos e desserviços aos cidadãos atingidos.
Oferecemos nosso apoio, colocando-nos à disposição dos agentes de Saúde Mental envolvidos na força tarefa dos cuidados à população envolvida, numa tentativa conjunta de aplacar o sofrimento de quem foi marcado pela impotente e avassaladora invasão da morte que, embora anunciada, trouxe consigo o impacto da inominável dor psíquica.

Diretoria da SBPMG